Crônicas

O homem que ouvia estrelas

Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.
Olavo Bilac

Havia um homem naquela cidade que buscava sempre os lugares mais altos e afastados. Depois de um dia cheio de trabalho, distrações e malcriações, ele subia morros, montanhas e prédios. Fosse onde fosse. Fosse como fosse…

Depois de um tempo, um menino miudinho, mas vivo no olhar e nas ideias, decidiu acompanhá-lo.

E, a partir daí, homem e menino subiam morros, montanhas e prédios toda noite.

Espia! Ouve com atenção… Sempre dizia o homem!

O menino, falante e curioso, também sempre perguntava o que é que as estrelas diziam!

Com o tempo, aprendendo com o velho homem, o menino passou a ouvir e entender.

E entendia de sonhos e memórias de outros tempos.

E entendia de pessoas, sentimentos e sensações.

E foi entendendo o porquê daquele homem, até então, viver só.

A gente precisa fugir do barulho e da confusão pra poder ouvir certas coisas que não dá pra ouvir lá embaixo.

E dizia sussurrando, quase que em uma oração.

E dias e noites e tempos distintos levaram o homem para lugares ainda mais longínquos. E o menino o seguia e crescia.

Até que o tempo, mandatário das coisas e das gentes, levou de forma definitiva o homem.

O menino estava só, mas não estava.

Dentro dele, as palavras do homem ressoavam, brilhavam, ressignificavam…

O menino aprendeu que só precisava ficar em silêncio pra pode ouvir estrelas.

E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo quando se tinha fome ou quando se sentia frio.

E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo para um homem que voltava a ser menino…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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